Cavalhadas em Montes Claros: A Fotografia e a Montagem por Trás do Resgate de uma Tradição
Quando recebi o convite de Fabíola Versiani e, depois, Murilo Maciel, para dirigir o documentário sobre as Cavalhadas de Montes Claros, eu sabia que estava diante de um projeto especial. No entanto, só ao mergulhar na história e nos personagens que a rodeiam, compreendi a real dimensão da minha tarefa. Assumi a responsabilidade pela direção de fotografia e pela montagem e edição do filme. Foi uma imersão completa, uma jornada que me permitiu não apenas contar uma história, mas senti-la através da lente e construí-la na ilha de edição. Este texto é um relato pessoal sobre essa experiência de traduzir em imagens e ritmo a alma da retomada das Cavalhadas em Montes Claros.
O documentário “Cavalhadas” foi produzido em homenagem ao seresteiro e produtor rural Nivaldo Maciel (1920-2009), personagem icônico da manifestação cultural em Montes Claros. Ele se apresentou como Rei Mouro na cavalhada da Festa do Centenário da Cidade, em 3 de julho de 1957. Nivaldo também foi um dos fundadores da Sociedade Rural de Montes Claros.
A direção de fotografia: capturando a alma e a força da tradição
Meu primeiro desafio como diretor de fotografia foi definir como iríamos filmar as Cavalhadas. Não se tratava apenas de registrar um evento ou de enfileirar entrevistas, mas de capturar o sentimento por trás de uma tradição que remonta a batalhas medievais entre mouros e cristãos, mas que em Montes Claros ganhou cores e significados únicos. A última vez que a cidade havia visto uma apresentação de Cavalhadas foi em 1957, durante a comemoração do seu Centenário. Havia, portanto, um imaginário a ser respeitado e uma nova emoção a ser documentada.

A abordagem visual precisava ser dupla. Ou seja, por um lado tínhamos a grandiosidade do espetáculo: os cavalos enfeitados com fitas e cores, o azul dos cristãos e o vermelho dos mouros, e a tensão das encenações de batalha. Como resultado, buscamos planos abertos, aproveitando a luz do sol que iluminava o campo de Buriti do Campo Santo, o cenário principal da nossa história. A ideia era dar ao espectador a sensação de estar ali, sentindo a poeira subir e o som dos cascos no chão.

Foram quatro dias de captação da parte ficcional do filme, no povoado, onde Alice descobre os trajes e a tradição da Cavalhada, Murilo explica a ela e às crianças do povoado sobre a tradição, o povoado se prepara para o grande evento e, por fim, o embate das lanças. Os diálogos dos cavaleiros foram captados separadamente e, depois, acrescidos às imagens captadas no dia da reencenação.
Montagem e edição: tecendo fios da memória
Se na fotografia o desafio era capturar as imagens de uma maneira que o público se sentisse dentro do espetáculo, na montagem o objetivo era conectar muitas informações diversas. Em outras palavras, o ato de editar se transformou em uma oficina de memória. O material era vasto e diverso: tínhamos as imagens históricas da festa de 1957, gentilmente cedidas por Virgínia Abreu de Paula; os depoimentos emocionantes de historiadores e participantes; as cenas documentais da recriação das Cavalhadas; e a delicada trama ficcional do avô e da neta.
Assim, o trabalho de edição foi como tecer uma colcha de retalhos, onde cada fragmento tinha sua própria textura e história. Como conectar a fala de um historiador sobre a origem medieval das Cavalhadas com a cena de um cavaleiro de Montes Claros selando seu cavalo ao amanhecer? Como transitar da nostalgia das fotos em preto e branco de 1957 para a vibração da festa popular em Buriti do Campo Santo, onde o povo dança e sapateia ao som do guaiano?

A estrutura narrativa buscou equilibrar o informativo com o poético. O roteiro de Thetê Rocha e Rita Maciel já nos dava um caminho sólido, e na montagem buscamos o ritmo. Há momentos de tensão, como na representação da batalha, e momentos de pura contemplação, como quando Nivaldo Maciel canta seu aboio forte e cheio de sentimento. O objetivo era que o espectador não apenas entendesse a história das Cavalhadas, mas sentisse seu peso, sua beleza e sua importância. Cada corte, cada transição, foi pensado para respeitar o tempo da memória e a pulsação da festa, culminando em momentos de catarse como a tradicional corrida das Argolinhas.
O fator humano: um filme feito por muitas mãos e corações

Nenhum filme se faz sozinho, mas “Cavalhadas” levou esse conceito a um novo patamar. Esta produção é a materialização de um esforço coletivo. O filme tem como principal idealizador Murilo Maciel, filho de Nivaldo Maciel, com o apoio de outros integrantes da família. Quase sete décadas após a Festa do Centenário, movidos pelo desejo de resgatar e preservar a tradição, filhos e netos de Nivaldo Maciel revivem a cavalhada, num esforço que resultou em novas apresentações da manifestação e na produção do documentário.




A começar pela família Maciel. A paixão de Murilo Maciel em honrar a trajetória de seu pai, Nivaldo, foi o motor de tudo. Ele não foi apenas o realizador e produtor; ele é o protagonista, o guardião da memória que guia a narrativa. Sua generosidade em compartilhar sua história familiar foi o que deu ao filme sua alma e seu coração.
E o que dizer da comunidade de Buriti do Campo Santo? Eles não foram coadjuvantes; foram coprodutores. Abriram suas casas, suas histórias e seus corações. Participaram das filmagens, ajudaram na logística e nos receberam de uma forma que transcendia qualquer relação profissional. A frase que ecoa no filme, “ergue-se o mastro de São Sebastião e o povo é quem acende a luz da tradição”, resume perfeitamente o que vivemos ali. A força do filme vem dessa verdade, dessa participação genuína.

Em conclusão, a experiência de construir a fotografia e montar o filme Cavalhadas, em Montes Claros, foi muito além do desafio técnico. Foi um aprendizado sobre legado, memória e comunidade. Ou seja, foi entender, na prática, que “a memória vive menos no que se guarda e mais no que se compartilha”.
Ficha Ténica do Filme Cavalhadas (2025)
Filme financiado pela Lei Paulo Gustavo (LPG), por meio da Secretaria de Cultura do município de Montes Claros.
Produção: Fulô Comunicação e Cultura (Fabíola Versiani) e Soyer Produções
Roteiro: Rita Maciel e Thetê Rocha
Direção: Neto Macedo
Câmera 1 e Assistência: Lucaz Rod
Still: Ângelo Pinheiro
Som direto: Matheus Sizílio (diálogos e ambientes), Davi Nogueira Macedo (festejos do povoado)
Trilha Sonora: Carlos Soyer e Tavinho Moura
Drone: Beto Rocha
Edição e Montagem: Neto Macedo
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