Tradição oral e cultura escolar: o que a um pequeno povoado no Jequitinhonha ensina
A cena se passou numa sala de aula do Povoado do Vau, distrito de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. A professora, querendo aproximar o conteúdo da vida dos alunos, mencionou uma das histórias de visagem que sempre povoaram o imaginário daquela comunidade. Eram histórias contadas ao redor da fogueira, à noite, por avós, tios, vizinhos. Histórias que ensinavam medo, respeito, limites do território, ética do convívio e outros temas que faziam parte da tradição oral e cultura escolar
Todavia, a resposta do aluno foi seca: “Isso é mentira, professora!”
Aquela frase, ouvida ali, é o ponto de partida do meu artigo Entre a Lousa e a Fogueira, recém-publicado na revista Centúrias, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). É um pequeno momento que diz muita coisa sobre o que aconteceu (e continua acontecendo) em comunidades rurais brasileiras quando o letramento escolar chega e desencontra a tradição oral.
Antes de seguir, uma apresentação rápida do personagem central do artigo. Pedro Cordeiro Braga (1917-2000) foi morador do Povoado do Vau, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. Garimpeiro, carpinteiro, carteiro voluntário do distrito, e com estudo formal apenas até a terceira série primária, Pedro tornou-se conhecido na comunidade por duas vocações que pareciam opostas: era um exímio contador de histórias na tradição oral dos antigos e, ao mesmo tempo, encheu dezenas de cadernos manuscritos registrando, à mão, a memória do povoado. Pedro aparece como personagem central do artigo porque sua vida materializa, num único homem, a tensão que o texto investiga: ele viveu, na própria carne, o momento em que a oralidade começou a ser desautorizada pela escola, e respondeu a isso de uma forma surpreendente, apropriando-se da escrita para salvar o que a oralidade ensinava. Os cadernos que ele deixou são hoje o objeto central da minha pesquisa de mestrado, defendida em 2025 no PPGH da Unimontes.
Esse post é uma versão menos densa, sem o aparato acadêmico, do que está no artigo. Para quem trabalha com educação, oralidade, patrimônio cultural ou simplesmente se interessa pelo Vale do Jequitinhonha, espero que sirva como porta de entrada para a pesquisa completa, cujo link está no fim do texto.
O que a oralidade ensinava antes da escola chegar
Antes da eletricidade chegar ao Vau, à noite, depois do trabalho na roça ou no garimpo, as famílias se reuniam ao redor da fogueira. Era ali que circulavam as histórias. Histórias de lobisomem que rondava certos becos, de almas penadas que apareciam em certas pontes, de cobra que comia gente em certos rios.
O que parece, de fora, mero folclore, era na verdade um sistema pedagógico, como toda tradição oral. Quando um mais velho contava um caso de assombração, sobre o assassinato de um antigo escravizado, ele não estava só assustando criança, mas fazendo um uso do passado para ensinar sobre a moralidade vigente. A história também era a forma como aquela comunidade transmitia, sem escola e sem livro, o conhecimento necessário para se sobreviver naquele território.
Hércules Santos Pereira, morador do Vau, descreveu pra mim aquele tempo com precisão: “Naquela época não tinha energia. Aí tinha um ponto onde a gente fazia um fogueirão à noite. Tinha aquela molecada, aquela meninada, ele [Pedro Braga] contando causo. Nós tinha um medo de voltar pra casa… era muito escuro, né?”
Esse modelo educacional (que chamei no artigo de pedagogia da fogueira) funcionava em regime de onipresença. Não tinha muro separando o espaço de aprender do espaço de viver. A sala de aula era a beira do rio, o quintal e o caminho da roça e de casa. A tradição oral, nesse sentido, não era um detalhe folclórico, mas a infraestrutura cognitiva de uma comunidade.
A escola, no começo, não competia com a sabedoria local
Quando o letramento formal chegou ao Vau, no começo do século XX, ele não veio na forma de ruptura, mas sim encarnado em mulheres da própria comunidade que assumiram, sem diploma e sem formação oficial, o papel de mestras. Zenólia Heráclides Coelho foi uma delas, ali entre 1910 e 1940. Depois veio Gabriela Braga, irmã do Pedro Braga, que lecionou por quase duas décadas.
Zenólia dava aula dentro da própria residência, com até 50 alunos em turmas multisseriadas. Mas quando faltava banco, ela tirava da cozinha. Era também a parteira da comunidade, a enfermeira informal e a escrivã das cartas para os ausentes.
Mais importante: a escola dessas mestras não competia com o saber popular local. Gabriela Braga chamava os pais dos alunos para irem à sala de aula. Entretanto, não para reclamar do comportamento dos filhos. Para contar histórias. “Eles vinha pra contar os casos”, lembrou Sebastião Vieira, que estudou com ela. Ou seja, a oralidade dos mais velhos entrava na escola como conteúdo.
Essa fase, que durou mais ou menos até os anos 1960, foi um momento raro de equilíbrio. A criança aprendia a ler na escola, mas continuava acreditando no avô. A “lousa” e a “fogueira” conviviam.
A ruptura: quando o aluno diz “isso é mentira”
A ruptura veio nas últimas décadas do século XX, com a chegada da eletricidade, da televisão, da estadualização da escola, da exigência de diploma formal para lecionar. Em cima de tudo isso, veio uma nova racionalidade — a da escola moderna, que ensina que o mundo é explicável, mensurável e demonstrável.
O sociólogo alemão Max Weber chamou esse processo de desencantamento do mundo. Para Weber, a modernidade não significa que o ser humano sabe mais sobre tudo. Significa que ele acredita que, em princípio, tudo pode ser explicado e dominado pelo cálculo racional. Ou seja, não há mais espaço para o mistério. Numa comunidade onde a vida sempre foi atravessada pelo sagrado, pelas almas, pelas visagens, pelo encanto da serra e do rio, isso bateu fundo. O aluno que disse “isso é mentira, professora!” era um sintoma. A escola moderna tinha ensinado a ele que o mundo do avô era falso. Que, portanto, o avô era ignorante.
A professora Rita de Cássia, nora do Pedro Braga e ex-docente da escola do Vau, descreveu o processo pra mim assim: “Tudo que cê contava os meninos acreditavam e falavam assim: ‘Ah, papai também contava isso. Vovó também contava isso’. Então cada um ia inteirando a parte deles.” Esse era o tempo antigo, quando a escola e a casa narravam o mesmo mundo.
E depois? “Foi perdendo o interesse. Eles não acreditavam mais. A gente contava e eles falava assim ‘ah, isso é mentira, não existe isso não’.”
A criança que diz “isso é mentira” não está só recusando uma história. Está rejeitando a autoridade do avô. Portanto, com ela, o sistema inteiro de transmissão de conhecimento que sustentou aquela comunidade por gerações.
Pedro Braga e a escrita como resistência
É aqui que entra a figura central da minha pesquisa: Pedro Braga. Ele percebeu, em tempo real, que o mundo que ele conhecia estava sumindo. Em vez de virar um velho amargurado reclamando da juventude, Pedro fez uma coisa surpreendente: começou a escrever.

O gesto de Pedro tem uma sofisticação que demora a ser apreendida. Ele apropriou-se da modernidade, ao invés de rejeitá-la. Percebeu que, se o aluno só acredita no que está escrito, então é preciso escrever. Se a oralidade perdeu autoridade, a saída era passar a oralidade para o papel. Isso é o que o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (e o próprio Pedro também) chama de tradução. Numa entrevista de 2023, Bispo disse: “Eu fui criado para isso, para traduzir a oralidade para as escritas e as escritas para a oralidade.” Pedro Braga fez exatamente esse trabalho no Vau. Foi tradutor entre dois mundos.
A conclusão do artigo (a parte que importa)
Aqui está o que eu quero deixar claro, sem complicação acadêmica: O currículo escolar não precisa ser inimigo da tradição oral. A criança do Vau que diz “isso é mentira” está sendo treinada a ser estrangeira na própria terra. Ela aprende a desprezar a sabedoria que produziu o lugar onde ela nasceu. Quando isso se perde, se perde também identidade, pertencimento e a capacidade de habitar um lugar com profundidade.
Pedro Braga construiu, sozinho, uma ponte entre os dois mundos. A escola pode fazer essa ponte como prática pedagógica. Em vez de descartar as histórias dos avós como superstição, pode trazê-las como objeto de estudo. Pode produzir alunos que circulam entre os dois saberes sem precisar escolher um e matar o outro.
A conclusão do meu artigo é simples: o desafio da escola do Vale do Jequitinhonha (e de tantas outras comunidades rurais brasileiras) não é escolher entre o que é oral e local e o que é escrito e global. O preço de não fazer essa ponte, a gente já está pagando. Cada vez que um aluno diz “isso é mentira” sobre a história do próprio avô, um pedaço da memória de um território brasileiro se apaga.
Para ler o artigo completo
O artigo Entre a Lousa e a Fogueira: tensões e diálogos entre a cultura escolar e a tradição oral no Vale do Jequitinhonha foi publicado na revista Centúrias — Revista Eletrônica de História (v.4, n.8, jan/jul 2026), do Programa de Educação Tutorial da Universidade Estadual do Ceará. É de acesso aberto.
Para quem está chegando agora ao trabalho que venho desenvolvendo sobre o Pedro Braga e o Povoado do Vau, este é o quarto artigo publicado como desdobramento da minha pesquisa de mestrado. Os outros, sobre toponímia, oralidade e escrita e sobre as representações da escravidão nas narrativas de Pedro, estão agrupados neste site.
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